Em destaque

NOSSA PRIMEIRA RODA DE CONVERSA “GORDOFOBIA:VOCÊ SABE REALMENTE O QUE É?”

        Nosso primeiro evento aconteceu dia 16 de março de 2019, sábado, no Metade Cheio Bar e Bistrô em Cuiabá. Conseguimos fazer nascer essa ideia junto a parceria e acolhimento carinhoso do pessoal do Metade Cheio que adorou e de cara aceitou o desafio. A gente amou, porque lá me sinto em casa!

“Gordofobia: você sabe realmente o que é?” foi incrivel, contamos com a mediação da Ligeya Daza Hernandes, feminista colombiana, que está no Brasil fazendo o Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea na UFMT. A Ligeya estuda o feminismo latinoamericano e veio contribuir sobre a discussão e relação da gordofobia com o feminismo.

Também teve a participação do cantor ativista gordo Hendson Santanna e seus dançarinos, com um pocket show que fechou o evento em grande estilo. Muita gente aproveitou para dançar e descontrair depois de nosso bate papo.

       Teve vários apoios nesta iniciativa a CULT! – Produção de Conteúdo Inteligente, Camila Pasinato: Design de Moda e Ilustração, Metade Cheio Bar e Bistrô, Cozinha de Sal – Cozinha Verde Inteligente (Chapada dos Guimarães/MT) e NEOM/Bordadeiras de Chapada dos Guimarães – Núcleo, Estudo e Organização da Mulher, as lojas Bebel.

Foram tantas as parcerias que sorteamos um monte de coisa, canecas, camisetas, comidinhas delicias sudáveis, ilustrações, a gente adora sortear mimos pra galera levar pra casa.

        

         Nesse encontro, ainda houve algumas mulheres gordas combinando e entendo a importância de começar um coletivo de mulheres gordas como uma das ações previstas no projeto em Cuiabá.

Foi um momento especial, de alegria, potencia, união e gordoridade.

Em destaque

lute como uma gorda

Estudos do Corpo Gordo Feminino

lute como uma gorda

Uma cultura fixada na magreza feminina não tem uma obsessão pela beleza, mas uma obsessão pela obediência feminina. … Naomi Wolf

Sejam todes bem vindes ao nosso blog, esse espaço é uma extenção das redes Estudos do Corpo Gordo Feminino, onde provocamos a reflexão e o empoderamento do corpo gordo através do conhecimento. Inscreva-se abaixo para acompanhar tudo que acontece nesse projeto.

A saúde da beleza é violência de gênero

Abdominoplastia para reduzir as gorduras do abdômen; Mini lifting facial para rejuvenescimento facial; Lipoaspiração para eliminar gorduras localizadas; Mamoplastia de aumento ou redutora dos seios; Blefaroplastia para rejuvenescer a aparência das pálpebras; Rinoplastia para corrigir a aparência no nariz, Otoplastia para as orelhas; Frontoplastia para remodelar a testa; Gluteoplastia para aumentar o tamanho do bumbum; Botox para rugas, marcas de expressão, sombrancelhas; Bioplastia para aumento de lábios, queixo, mandíbula, maçãs do rosto; Braquioplastia para eliminar flacidez ou pele da região do braço, Rejuvenescimento das mãos a laser ou cirúrgica; Ninfoplastia ou labioplastia cirurgia para retirada ou enchimento nos grandes lábios e de aparência da vagina; Rejuvenescimento Vaginal para o canal da vaginal ser mais apertado e estreito, etc, etc, etc…. Poderia preencher páginas e páginas com nomes de procedimentos estéticos aqui… e, inclusive acho que exagerei, mas essa introdução é apenas uma ilustração dos inúmeros procedimentos da Saúde Estética em nome da beleza existentes para o público majoritariamente Mulheres.

Essas são algumas intervenções cirúrgicas propostas pela medicina para a “saúde” e beleza da mulher no nosso país e no mundo, hoje em nome da “autoestima” e “saúde” você pode mudar qualquer parte do seu corpo, claro que se tiver como bancar, será mais rápido e seguro, já que esses procedimentos costumam ser caros e quem acaba consumindo é a classe média, alta do país. Contudo, muitas mulheres pobres impulsionadas pela mídia da beleza e da saúde como estética, acabam buscando essas intervenções com ofertas mais populares, em outros países sempre com o slogan de milagres, mas nem sempre tem o resultado desejado que viu na celebridade no Instagram, pior ainda quando termina em morte.

Segundo a Sociedade internacional de Cirurgia Plástica Estética – ISAPS, o Brasil em 2018 fez 1.498.327 cirurgias estéticas, somos hoje o país com mais procedimentos estéticos do mundo, seguido pelos Estados Unidos, Alemanha e Itália. Segundo o estudo, 87.4% dos pacientes no mundo todo, são as mulheres que mais buscam pelos procedimentos estéticos.

Uma pesquisa de doutorado da UNIFESP, defendida em 2017, antes desses dados serem divulgados pelo ISAPS, apresentou que “mais de 90% das certidões de óbito de pessoas que faleceram após passarem por lipoaspiração não trazem informações precisas. O preenchimento incorreto dificulta estabelecer a real causa da morte.”

Os dados fazem parte da tese de doutorado de Di Santis, defendida no Programa de Pós-Graduação em Saúde, baseada em evidências, na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo. O trabalho reacendeu, entre os especialistas, um antigo debate para a criação de um projeto de lei que torne obrigatória a notificação de casos de complicações e mortes por lipoaspiração em todo o território nacional.

O pesquisador Érico Pampado Di Santis explica em sua tese que falta informações precisas sobre a causa de mortes nesses procedimentos estéticos e que 98% das vítimas são mulheres.

A beleza do corpo, especialmente o feminino, é regulamentada por uma norma rígida e única: a magreza. Não existe alternativa legítima a esse modelo. Impossível realmente imaginar uma pin-up, uma estrela, uma top model, enfim, que não corresponda ao imperativo da magreza absoluta. É o modelo da hipermagreza. A moda tornou-se mais tolerante. A beleza, ao contrário, tornou-se mais despótica, autoritária e inflexível. A proliferação de imagens – cinema, televisão, fotos, publicidade – reforça o modelo dominante e castiga qualquer divergência. A consequência disso é a hiperdimensão tomada pelas dietas, pelas academias de ginástica e pelas cirurgias plásticas. Ser magro é um imperativo categórico. Toda infração à norma é malvista e criticada. (LIPOVETSKY, 2016, p.12).

Vale tudo para alcançar esse corpo construído continuamente como aquele que é sinônimo de felicidade, beleza, saúde. Conquistar esse corpo magro, enaltecido socialmente, é um tipo de status e, para lograr essa conquista, como um prêmio, vale qualquer coisa.

Nosso corpo é considerado um portfólio de apresentação, define quem somos ao outro, que nos julga através do que vê. Sendo assim, emagrecer é um imperativo central na vida da maioria das mulheres, com motivação estética e do discurso vigente de saúde.

O mercado do emagrecimento lucra com um exército industrial para atender à ordem de ter um corpo magro e malhado, são chás, shakes, pílulas, programas, dietas e receitas milagrosas que prometem resultados rápidos e sem consequências para a saúde, mas que não cumprem o que garantem.

A discussão do emagrecimento, das dietas e dos produtos para alcançar um corpo com saúde saiu dos consultórios e laboratórios e ocupou o cotidiano das pessoas. Em todos os espaços sociais existem conversas sobre receitas e controles sobre o corpo, destacando-se como atingir isso rapidamente. (JIMENEZ-JIMENEZ, 2020, p. 119)

O mercado do emagrecimento apoia-se na mídia e boca a boca, e as matérias sensacionalistas que vemos sobre a epidemia da obesidade colaboram para essa busca frenética e, consequentemente, a venda de produtos que deixem o corpo menor, magro, firme, branco, atrativo, etc.

A saúde da beleza é violência de gênero, porque em nome da saúde e da imposição desde pequenas em todas as instituições que frequentamos é exigido, ensinado e impulsionado o consumo de uma construção de corpo “perfeito” sem a verdadeira seriedade e riscos que todos esses procedimentos acarretam como violência na mulher.

Dormir com fome, ter muitas dores nas cicatrizações das cirurgias, malhar até a exaustação, etc… são alguns exemplos corriqueiros que a maioria das mulheres já experimentaram para alcançarem o corpo que nos vendem como saudável, feliz e belo… isso é violência de gênero também!

Para Consultar

– DI SANTIS, Érico Pampado. Mortes relacionadas à lipoaspiração no Brasil entre 1987 e 2015. 2017. 215 f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2017.

– Sociedade internacional de Cirurgia Plástica Estética. Disponível em: https://www.isaps.org/pt/

– JIMENEZ-JIMENEZ, Luisa, Maria. Por que a BELEZA é tão importante para as MULHERES? 2018. (Blog/Facebook). Disponível em: https://www.todasfridas.com.br/2018/11/12/por-que-a-beleza-e-tao-importante-para-as-mulheres/

– JIMENEZ-JIMENEZ, Luisa, Maria. Lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos. 2020. Doutorado (Programa de Pós Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea – ECCO) – Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Cuiabá, MT, Brasil. Disponível em: https://lutecomoumagorda.home.blog/tese-de-doutorado-lute-como-uma-gorda-gordofobias-resistencias-e-ativismos/

– WOLF, Naomi. O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

Texto publicado no Todas Fridas 15 de setembro de 2020.

Link: https://www.todasfridas.com.br/2020/09/15/a-saude-da-beleza-e-violencia-de-genero/

Pode um Corpo Gordo ser Anticapitalista?

A Tenda de Livros fará sua primeira transmissão ao vivo e será com tradução. Convidei ativistas e artistas gordas anticapitalistas do Brasil, Chile, Argentina e México para falarem de suas pesquisas sobre corpo gordo. Artistas, filósofas, escritoras, pesquisadoras decoloniais e ativistas de movimentos sociais anarquistas, feministas, antiespecista, LGBTTTQ+ e negro de diversas gerações compõem a roda de conversa. A ideia é trazer vários olhares sobre o corpo gordo sob uma perspectiva anticapitalista.

A atividade é uma pauta em processo já que todas as pessoas convidadas para o debate estarão no Jornal de Borda 09, o último com convidadas. Jornal de Borda é uma publicação de cultura visual que existe desde 2015 , é editada em português e espanhol e cuja realização é da Tenda de Livros. Ativa o sininho e vem sábado responder conosco:

Pode um corpo gordo ser anticapitalista?

Mais detalhes sobre as pessoas debatedoras:

Alejandra Labala é performer ativista gorda mexicana que realiza contra-ofensivas visuais para os meios digitais;

Camila Fontenele é artista e fotógrafa, pesquisa corpo, território, ancestralidade;

Fernanda Magalhães é artista, fotógrafa, performer, atua a partir das Corpas Gordas e das Diversidades;

Hailey Kaas é transfeminista, tradutora e escritora, foi uma das responsáveis pela introdução do transfeminismo no Brasil;

Kono é ativista gorda, sapatona, antiespecista, posporno, escritora. Autora do manifesto gordx e la cerda punk;

Malu Jimenez é filósofa feminista gorda, doutora em Estudos de Cultura Contemporânea em gordofobia; – Nicolás Cuello é professor de Historia da Arte e activista da diversidade corporal;

Paula Mello é fotógrafa, artista visual com formação em filosofia e curadora da ColaAqui! StickHere!;

Vanessa Joda é fundadora do projeto escola Yoga Para Todos, professora de yoga, militante anti gordofobia e anarcafeminista.

::::: A mediação da conversa é da artista e pesquisadora Fernanda Grigolin, idealizadora do Jornal de Borda. A tradução é de Cristina Aschar e a produção é de Erico Marmiroli, Paula Monterrey e Pedro Gallego.

:::::: A atividade é parte da Campanha Vem pro Fim do Borda, que iniciou dia 05 de junho Mais detalhes: http://www.tendadelivros.org/fimdoborda

::::::: Sobre o Jornal de Borda O Jornal de Borda se utiliza do formato jornal para trazer um conteúdo que vai além da informação “atual”. Até agora foram produzidas quase duzentas páginas, divididas em oito edições. Você já se deparou com algum exemplar por aí? Trabalhos de artistas, fac-símiles de jornais de cem anos atrás e textos ensaísticos de historiadores e militantes co-existem em edição. Chamo de jornal por ser um periódico num formato padrão e impresso em uma máquina rotativa de alta tiragem, mas nele não há nenhuma notícia sobre apresentações de música ou exposições de arte. O que há é um conjunto de trabalhos visuais e textuais que se debruça sobre um tema, “Fronteiras e Encruzilhadas” foi um dos temas, por exemplo.

::::::: Vem pro Fim do Borda Em abril iniciamos uma chat conversa por chat, em maio foram realizadas duas lives no Instagram como atividades prévias do Vem pro Fim do Borda e agora é um momento de colocar todas as pessoas que estarão no Borda juntas. O Jornal de Borda se despede em 2020 e você pode fazer parte da nossa história nos apoiando. Siga o Borda no Instagram @jornaldeborda

PUBLICAÇÕES LUTE COMO UMA GORDA! Por Malu Jimenez

Muita gente me pergunta, pede, especula sobre minha produção textual como consequência de minhas pesquisas no Doutorado sobre gordofobia em Estudos de Cultura Contemporânea na UFMT. Então, resolvi deixar aqui a disposição de quem tiver interesse, fiquem a vontade!

Importante dizer que a maioria de meus textos, escritas, incluindo a tese “lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos.” são de leituras fáceis, para que todes possam acessar, essa é uma preocupação minha em todos os sentidos, minhas palestras, rodas de conversa, cursos, entrevistas e o que eu fizer, tento ao máximo usar uma linguagem comum, até porque eu sou comum, rsrsrsrsr ….. brincadeiras a parte, mas é isso, minha proposta de vida e de uma das metodologias que utilizo em meus estudos é a autoetnografia que dá importância para uma escrita que o maior número de pessoas tenham acesso.

Nessa lista estão todos os textos ativistas-acadêmicos e acadêmicos-ativistas, ou como vocês queiram chamar:

Gorda, linda y feliz. Proyecto Kahlo. La revolución comienza en tu interior. Barcelona. Espanha, 2016.

ARTIGOS CIENTÍFICOS

Gordofobia e Ativismo gordo: o corpo feminino que rompe padrões e transforma-se em acontecimento. XXXI Congreso Asociación Latinoamericana de Sociología – Montevideo – Uruguay, 2017.

Mulheres Gordas: Consumo, classe social e gordura. X Congresso Português de Sociologia – Portugal, 2018.

Mulheres gordas: práticas de consumo e mercado. IX Encontro Nacional de Estudos do Consumo – ENEC – ESPM, Rio de Janeiro, RJ – 2018.

Prazeres Dissidentes: pornografia gorda nas redes digitais. CSOnline – Revista Eletrônica de Ciências, vol. 31, 2020.

TESE

JIMENEZ-JIMENEZ, Maria Luisa. Lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos. 2020. Doutorado (Programa de Pós Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea – ECCO) – Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Cuiabá, MT, Brasil.

TODAS FRIDAS

Mulheres Gordas de Biquíni no Verão: Direito de Todas. TODAS FRIDAS, 2018.

Gordofobia, Mercado e Representatividade da Mulher Gorda. TODAS FRIDAS, 2018.

A importância do feminismo para o planeta, 2018.  

Gordofobia: uma questão de perda de direitos, 2018.

O corpo gordo feminino como resistência! 2018.

Dietland: a Gordofobia como questão Feminista. 2018.

Gordofobia Médica: A reprodução do Estigma Social, 2018.

Mulheres Gordas numa sociedade lipofóbica, merecem a sororidade de todas e todes, 2018.

Mulheres e saberes subalternos: por uma episteme feminina, 2018.

Por que a BELEZA é tão importante para as MULHERES? 2018.

 – Pelo direito a não querer emagrecer e ser GORDA! RESPEITO AOS CORPOS DIFERENTES! 2019 .

MEU CORPO GORDO É POLÍTICO: RESISTE AOS PADRÕES DA BELEZA E SAÚDE. 2019.

GORDOFOBIA NA ESCOLA: LUTE COMO UMA GORDINHA! 2019.

Mulheres Fortes e Exaustas. 2020.

Se liga: body positive NÃO é ativismo gordo! 2020.

Quarentena e as apropriações do protagonismo na internet. 2020.

A GORDOFOBIA MATA. E EM TEMPOS DE QUARENTENA MATA MAIS! 2020.

A saúde da beleza é violência de gênero. 2020. (blog/Facebook).

GURU DA CIDADE

MARGENS

Na Hysteria Revista Feminista mexicana:

Boa leitura!

O DIA DA DEFESA Lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos

Foi ontem e eu já postei cositas sobre esse momento especial, mas ainda tem muita coisa pra dizer, porque essa história não se resume num post ou dois rsrsrsrs …

Ela é imensa de gorda e eu vou inundar as redes, as ruas, os corações com minha pesquisa e suas reverberações!

Ainda em êxtase, preciso aproveitar esses sentimentos “fora de mim” transbordando minhas escrituras, transformando em afetos que afectam a todas as envolvidas e aquelas que nem sabem ainda, que não tem problema nenhum em ser GORDA.

Dia 30 de Janeiro de 2020 eu consegui finalizar um processo de apresentar a academia, uma discussão urgente e necessária sobre corpos marginalizados e excluídos socialmente sobre a estigmatização que coloca o corpo gordo como doente, errado e anormal.

Minha tese é uma mistura de denúncia, dor, sofrimento e resistências afectivas que reverberam em respeito e admiração por tudo que está envolvido a despatologização ao corpo gordo.

A proposta em entender que esses corpos gordos podem e devem ser vistos e entendidos de outra maneira, que não a de exclusão é uma virada epistemológica, mesmo que inicial, mas é ….  da injustiça episteme que a história do conhecimento deve a nós mulheres gordas.

Esse trabalho é denunciativo, mas também é uma cobrança dos poderes públicos e isso inclui a saúde, educação, trabalho, transporte, pesquisa, etc, etccc que o tratamento a esses corpos deva mudar, e essa mudança é urgente porque o Estado negligencia esses corpos há séculos,

Minha tese que me modificou, transformou e eu a virei de cabeça para baixo, propõe além da pesquisa, estudos e escritas, ações concretas com o projeto lute como uma gorda, que vem se destacando em diversos segmentos, como políticas públicas no que tange a desmontar, denunciar e desprogramar essa subjetividade heteronormativa capitalística, colonial em que acredita que o único corpo possível é o magro.

Obrigada pelo carinho com que o Programa Estudos de Cultura Contemporânea ECCO – UFMT, seus professores, a banca externa acolheu, entendeu e contribuiu com a proposta.

OBRIGADA!

Chegou o grande dia! Defesa de TESE lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos.

Arte em Aquarela da Artista Gorda Valentina Fisciletti


Cheia de gratidão, alegria, esperança e luta que venho comunicar a vocês minha defesa da tese de doutorado do PPG Estudos de Cultura Contemporânea – ECCO na UFMT, orientada pela querida e imprescindível Prof.ª Dra. Juliana Abonizio, com a banca formada por mulheres especiais, das quais me orgulho muito por aceitarem fazer parte dessa pesquisa ativista em primeira pessoa, Dras. @Ludmila Brandão e @Patrícia Osório professoras do ECCO e @Janine Collaço da UFG e @Marcia Mazon da UFSC, banca presidida  por @Giordanna Santos, a qual agradeço pelo carinho e atenção sobre meu trabalho. E agora, vem textãoooooo ………

Essa pesquisa mudou minha vida completamente, escolher esse tema me levou a trilhar caminhos e conhecer outras mulheres em que eu nunca imaginava vivenciar, mostrou-me mais uma vez, que nada se constrói sozinha e que quando o projeto é grandioso como esse, é preciso que muitas mãos, mentes, potências, resistências e ativismos estejam juntas e fortes para transformar dor em tese, experiência corporal em luta. Chego ao fim dessa etapa, já que a pesquisa não tem limites, finais, nem conclusões… estamos apenas começando nesse caminhar, mas a fase de doutoramento sim, a termino com muitas conquistas, uma rede de apoio com várias frentes, o nascimento do lute como uma gorda que acabou virando o título da tese … está crescendo, engordando, empoderando… e, ainda vem muita coisa por aí!

Agradeço e dedico esse trabalho a todas as Mulheres Gordas que, como eu, sofreram e sofrem, foram humilhadas e invisibilizadas cruelmente desde suas infâncias à fase adulta, por ações perversas de exclusão, justificadas por preocupação com a saúde, e discurso de ódio assumido e descarado nas ruas e redes sociais.

Às pesquisadoras e aos pesquisadores gordos, no Brasil e no mundo, por aceitarem esse desafio com coragem, por tratar da temática do corpo gordo colocando-se como protagonistas ao fazer pesquisa/ciência. Este trabalho é necessário e importante para que possamos influenciar e exigir políticas públicas e uma reflexão mais crítica no que tange ao tratamento às pessoas gordas em nossa sociedade. Ao ativismo gordo que me ensinou e ensina a transformar ódio e raiva em resistência, que conhecimento empodera e que meu corpo gordo é político e (re) existe à padronização do único corpo viável nessa sociedade, o magro. Às seguidoras e amigas que encontrei nessa caminhada de muita luta, trocas e reflexões, numa outra maneira de ser, entender e estar no mundo. Muitissimoooooooo obrigadaaaaaaa!

E quero terminar agradecendo essa maravilhosa artista GORDA, que fez esse convite tão cheio de significados, em aquarela e cheio de potência …. @Valentina Fisciletti obrigada pelo carinho, é de emocionar!

O corpo gordo feminino como resistência !

Para Denise Sant’anna (1995: 12), “o corpo é, ele próprio um processo. Resultado provisório das convergências entre técnica e sociedade, sentimentos e objetos, ele pertence menos à natureza do que à história.”

Cada grupo social imprime expectativas em torno ao corpo. Para Foucault (1997: 127), em qualquer sociedade o corpo é um locus de poder, sujeito a coerções e domínios ou a experiências de confronto e resistência. “O certo é que as redes do poder passam hoje pela saúde e o corpo. Antes passavam pela alma, agora pelo corpo.” Por este motivo, defendemos que o corpo se reveste de significados e interpretações, ao “corpo se aplicam sentimentos, discursos e práticas que estão na base das vidas sociais.” (Ferreira, 1994: 101).  Segundo Fischler (1995: 69), “(…) há um século nos países ocidentais desenvolvidos os gordos eram amados; hoje, nos mesmos países, amam-se os magros.”

Estar fora do arquétipo atual de belo leva qualquer indivíduo a sentir-se excluído, triste e inconformado com seu próprio corpo e essa insatisfação movimenta um mercado bastante diversificado que inclui academias, moda, cirurgias, alimentação, remédios, aparelhos, etc. O que efetivamente se vende é a possibilidade de se permanecer vivo, belo e jovem, mas, para tanto, a magreza se sobressai como um valor em si mesmo.

Vivemos em uma época de “lipofobia” que está diretamente ligada a uma “obsessão pela magreza, sua rejeição quase maníaca pela obesidade.” (Fischler, 1995: 15). A pessoa gorda representa um peso socialmente inadequado e passa a ser percebida por meio de uma imagem negativa.

“Nossa cultura de valorização da magreza transformou a obesidade em um símbolo de falência moral. Denota descuido, preguiça, desleixo, falta de disciplina. Também denota pobreza (…).” (Brown, 1998). Segundo Sant’anna (2014), nos Estados Unidos, em 1926, um médico chamado Leonard Williams escreveu um livro intitulado “Obesidade”, no qual os indivíduos mais pesados eram associados a um caráter ávido e repulsivo, para o médico, ninguém tinha o direito de ser gordo. Esse tipo de discurso ainda continua nos dias atuais e é confirmado e atualizado, generalizando a tendência de excluir todo gordo dos espaços sociais conformados a um discurso majoritário.

Contudo, há uma reação a essa padronização e a sua imposição, como podemos observar através de movimentos sociais e ativismos variados genericamente classificados como movimentos antigordofobia.

A gordofobia é uma maneira de discriminação, “Estruturada e disseminada nos mais diversos contextos socioculturais que consiste na desvalorização, estigmatização e hostilização de pessoas gordas e seus corpos. Os comportamentos gordofóbicos geralmente reforçam estereótipos e impõem situações constrangedoras, degradantes com fins segregacionistas”. (Arraes, 2015).

No cotidiano, a gordofobia causa dificuldades em enfrentar a estigmatização, pois frequentemente o discurso preconceituoso vem ocultado no discurso de valorização da saúde e revestido de argumentos aparentados de medicina.

A ideia de preocupação com a saúde de quem é gordo já demonstra indícios de gordofobia, uma vez que se presume que aquele sujeito é doente só por estar acima do peso considerado ideal, enquanto pessoas magras não são abordadas e questionadas a respeito de seus níveis de pressão arterial por exemplo. Se a magreza torna-se ideal de saúde, ser gordo, além de esteticamente desvalorizado, torna-se uma patologia.

Em contraposição a essa opressão, que afeta, sobretudo pessoas do gênero feminino, tem sido criados canais de ativismo cibernético tendo como protagonistas mulheres que se propõem a “representar” os corpos gordos de maneira positiva.

Dentro dessa discussão, se faz urgente refletir sobre o corpo gordo “despadronizado” da exigência vigente na produção de uma subjetividade capitalística. (Guatarri; Rolnik, 1996), verberando outro modo de ser e estar no mundo, admitindo um corpo diferente ao imposto como padrão.

Para Louro (2015: 15), a expressão que fabrica o que é ser mulher e o que é ser homem é sempre destacada nos corpos, através do contexto que determina cultura e, por isso, são socialmente estabelecidas. Assim sendo, deixar claro que as diferenças entre homens e mulheres não se dão somente através de definições biológicas pode parecer óbvio, porém, possibilita um entendimento sobre o corpo como “produzido na cultura e pela cultura”, transcendendo o olhar naturalista com que inúmeras vezes o corpo é explicado e, muitas vezes tratado.

Não existe nenhuma justificativa legítima de natureza biológica ou histórica para o mito da beleza. O que ele está fazendo às mulheres hoje em dia é consequência unicamente da necessidade da cultura, da economia e da estrutura do poder contemporâneo de criar uma contra ofensiva contra as mulheres. Se o mito da beleza não se baseia na evolução, no sexo, no gênero, na estética, nem em Deus, no que se baseia então? (…) O mito da beleza na realidade sempre determina o comportamento, não a aparência. (Wolf, 1992:16-17).

Desse modo, a noção de um corpo conformado ao que se considera belo e saudável exige do sujeito muito mais do que a exibição do corpo magro e malhado, pois é exigido um combo de comportamentos a serem seguidos, incluindo práticas de consumo, padrões de gênero e uma episteme do próprio significado da corporalidade.

O MEU CORPO É RESISTÊNCIA.

A aceitação do próprio corpo com a concomitante despadronização da concepção de beleza é um processo que dura a vida inteira e nunca aparece como algo fácil ou indolor.

O corpo é social, isto significa que “O corpo está submetido à gestão social tanto quanto ele a constitui e a ultrapassa.” (Sant’anna, 1995: 12). Entender o corpo como instrumento para constituição de uma subjetividade vem ao encontro do entendimento de Guatarri e Rolnik (1996) que nos advertem para uma “subjetividade capitalística”. Todos somos co-produtores dos padrões do sistema vigente.

O indivíduo, a meu ver, esta na encruzilhada de múltiplos componentes de subjetividade. Entre esses componentes alguns são inconscientes. Outros são mais do domínio do corpo, território no qual nos sentimos bem. Outros são mais no domínio daquilo que os sociólogos americanos chamam de “grupos primários” (o clã, o bando, a turma, etc.). Outros, ainda, são do domínio da produção de poder; situam-se em relação a lei, a policia, etc. Minha hipótese é que existe também uma subjetividade ainda mais ampla: é o que chamo de subjetividade capitalística. (Guattari; Rolnik, 1996: 34).

Para os autores, a cultura de massa é vista como elemento fundamental da “produção de uma subjetividade capitalística”, já que é essa cultura que produz indivíduos normalizados, “articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão.” (Guattari; Rolnik, 1996: 16). Mesmo que inconscientes, co-produzimos esse modo de vida, padronizando pensamentos, modos de agir, comportar, andar, falar, ver, estar e saber. Contudo, é possível produzir subjetividades dissidentes:

No Brasil, apesar de o país estar comprometido com um processo capitalístico e estar em vias de tornar-se uma grande potencia, há imensas zonas da população “não garantida” que escapam a esse tipo de esquadrinhamento, a esse tipo de produção de subjetividade, e isso é muito importante. (Guattari; Rolnik, 1996: 58).

Ainda para os autores,

“O que vai permitir o desmantelamento da produção de subjetividade capitalística e que a reapropriação dos meios de comunicação de massa se integre em agenciamentos de enunciação que tenham toda uma micropolítica e uma política no campo social. Uma rádio livre só tem interesse se ela é vinculada a um grupo de pessoas que querem mudar sua relação com a vida cotidiana, que querem mudar o tipo de relação que tem entre si no seio da própria equipe que fabrica a radio livre, que desenvolvem uma sensibilidade; pessoas que tem uma perspectiva ativa a nível desses agenciamentos e, ao mesmo tempo, não se fecham em guetos a esse nível.” (Ibidem, 1996: 47).

Guattari; Rolnik (1996: 46) menciona a revolução molecular como produção “não só de uma vida coletiva, mas também da encarnação da vida para si própria, tanto no campo material, quanto no campo subjetivo.” Há, portanto uma resistência social quando saímos desse domínio normatizado e partimos para outro lugar de criação e reflexão do corpo como ele é e do que pode ser.

Aceitar, o corpo como ele é ou produzi-lo de modo criativo, pode provocar mudanças nas concepções de beleza, saúde e felicidade, e podemos considerar esse processo uma expressão de resistência a corporeidade capitalística, já que transfere o indivíduo para outra lógica de estar e ser no mundo.

Eliminar o gênio é a preocupação manifesta. Poderíamos nem levar em consideração, se fosse apenas o gênio que estivesse em questão; mas não se trata apenas do gênio, é a nossa originalidade individual, a genialidade singular que todos possuímos, cuja eficácia, cuja existência são colocadas em questão; porque todos nós, de qualquer lugar, dos mais obscuros aos mais famosos, inventamos, aperfeiçoamos, variamos, ao mesmo tempo que imitamos, e não há sequer um de nós que não deixe uma marca profunda ou imperceptível, em sua língua, em sua religião, em sua ciência ou sua arte.  (Tarde, 1898: 35 apud Lazzarato, 2006: 150).

Lazzarato (2006) propõe deslocar as noções de produção e de trabalho na centralidade teórica propostas pelo marxismo para discutir o capitalismo e coloca a noção de invenção como importância fundamental nessa discussão. O valor, para esse autor, está quando se inventa algo, quando se cria uma nova maneira de estar, pertencer e ser no mundo.

Amar o próprio corpo pode transformar a forma de um indivíduo pensar e estar no mundo, reflexões reverbera uma revolução na criação de outro modo de estar, viver e ser na vida. Posicionamento esse que, através da aceitação e respeito com seu próprio corpo, possa acontecer inúmeras libertações que mude ou pelo menos abale a subjetividade capitalística dos indivíduos que experimentam padronizações severas corporais desde suas infâncias. (Jimenez-Jimenez; Abonizio, 2017:10).

A proposta de Michel Foucault de subordinar a existência cotidiana a um denominador estético,

[…] o problema político, ético, social e filosófico de nossos dias não é o de tentar libertar o indivíduo do Estado e das instituições estatais, mas de nos libertar tanto do Estado quanto do tipo de individualização que está vinculado a ele. Precisamos promover novas formas de subjetividade através da recusa desse tipo de individualidade que tem sido imposta a nós há vários séculos. (Foucault, 1983: 216).

Esse “acontecimento” que citamos como encontro com seu próprio corpo nessa sociedade faz referência ao que Lazzarato (2006) apresenta numa discussão ontológica ao colocar o “acontecimento” como ponto focal de invenção social, de criação de mundos possíveis, defendendo assim, o processo de experimentação e criação. O caráter imprevisível e arriscado do acontecimento é ressal­tado, e o exemplo-mor do acontecimento político são os movimentos de Seattle em 1999. Através desta refundação ontológica, trata-se de refutar a “filosofia do sujeito”, atribuída a autores como Kant, Hegel e Marx, em favor da “filosofia da diferença”, cuja genealogia que passa por Leibniz, Tarde, Bergson, Deleuze e Félix Guattari. “Acontecimen­tos, não mais essências: a ruptura é radical.” (Ibidem, 2006: 54).

O ato de criação sendo uma singularidade, uma diferença, uma criação de possibilidades, deve ser distinguido de seu processo de efetuação (de repetição e propagação pela imitação) que faz dessa diferença uma quantidade social. A efetuação ou propagação da invenção através da imitação expressa a dimensão corporal do acontecimento, sua realização nos agenciamentos espaço-temporais concretos. (Lazzarato, 2006: 45).

Elucidando a ideia do corpo que é resistência a padronização estética capitalista e, tornando-se capacidade do acontecimento político de empoderamento, acaba-se manifestando uma vontade de oposição ao que já se vive na sociedade de controle, capturando e revelando fluxos de crenças e de desejos contra a naturalização do sistema e reafirmando a revolução que o indivíduo pode se propor na abertura de uma possibilidade a novos mundos possíveis.

O mundo possível existe, mas não existe mais fora daquilo que o exprime: os slogans, as imagens capturadas por dezenas de câmeras, as palavras que fazem circular aquilo que “acaba de acontecer” nos jornais, na internet, nos laptops, como um contágio de vírus por todo o planeta. O acontecimento se expressa nas almas no sentido em que produz uma mudança de sensibilidade (transformação incorporal) que cria uma nova avaliação: a distribuição dos desejos mudou. Vemos agora tudo aquilo que nosso presente tem de intolerável, ao mesmo tempo que vislumbramos novas possibilidades de vida.  (Lazzarato, 2006: 22).

Segundo Baquero (2012), pode-se pensar no conceito empowerrment ou em português o empoderamento de sujeitos, em suas duas formas: individual e coletivo. O primeiro caso, segundo a autora, diz respeito à análise psicológica, como o indivíduo se vê e procura recursos para modificar sua vida, assim, ele tem condições de se empoderar em autoestima, auto-afirmação e autoconfiança. Já a forma coletiva pode ser compreendida em dois níveis, um organizacional, que diz respeito à autonomia e participação de colaboradores em uma organização, implicando decisões e participações em coletivo; outro comunitário, relacionado à união de indivíduos desfavorecidos que procuram meios de melhorarem o ambiente em que vivem, “[…] buscando a conquista plena dos direitos de cidadania, defesa de seus interesses e influenciar ações do Estado.” (Baquero, 2012: 178).

Sardenberg (2006), em sua análise numa perspectiva feminista, afirma que o empoderamento deve ser visto de forma coletiva, já que somos seres sociais e construídos a partir do meio que vivemos. Contudo, Mosedale (2005) apresenta uma discussão, na qual reitera que não há como uma pessoa empoderar outra, já que o empoderamento está intrínseco a auto-reflexão, o que alguém pode é ajudar, apoiar e/ou mostrar como se podem criar meios para essa autonomia, pois o empoderamento é um processo e talvez nunca exista algo acabado e absoluto, é uma construção com altos e baixos, isto é, uma busca, encontrar uma auto-reflexão sobre o emancipar-se, aceitar-se é algo que dura a vida toda.

Segundo Shirin Rai (2002), o empoderamento para o movimento feminista está entendido como o oposto ao poder, pois essa ação deve estar focada nos oprimidos e não nos opressores, já que se entende o poder como capacitação, competência para as mulheres e nunca superioridade a algo ou alguém. Srilatha Batliwala (1994) mostra que foi a partir das criticas feministas do terceiro mundo que chega o resultado do conceito de empoderamento. “A tomada de consciência não se dá de forma isolada, mas através das relações que os homens estabelecem entre si, mediados pelo mundo.” (Baquero, 2012: 182).

Entendemos, portanto que empoderamento feminino é um processo que parte de uma busca por ações e conhecimento para encontrar força e poder sobre si e conseguir se emancipar de opressões que acontecem em nosso entorno e nos tornam oprimidos e tristes com o que somos. Ao contrário, o processo de empoderamento faz com que percebamos essa opressão e o quanto isso pode nos fazer mal e assim, encontrar novos modos de pertencimentos às instituições e instituir novos arranjos sociais.

O empoderamento da gorda passa por deixar de se sentir inferior e/ou excluída e entender que o preconceito e exclusão do gordo na sociedade, acontecem por sistemas de padronizações sociais que geram lucros, e gostar de como você é, e não de como a sociedade gostaria que você fosse, é emancipar-se.

Crescemos vendo e identificando em nós, o corpo gordo como algo ruim, feio, repulsivo e, portanto indesejável. Nós, mulheres gordas desde sempre associamos nosso corpo como algo que ninguém pode ver e aceitar como normal, e pior ainda como belo. Foucault (1988: 180), explica “(…) Afinal, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder.”

Muitas vezes ouvi palavras que desaprovavam meu corpo e imposições de que deveria buscar outra forma de ser e estar no mundo, por não me encaixar dentro de um corpo magro. No dia a dia existe um fuzilamento para nunca ser grande. Note que sempre estamos vendo na TV, revistas, net truques para afinar, diminuir, disfarçar a barriga, o rosto rechonchudo, a coxa larga, não importa o que, mas todas as partes devem ser magras e finas para serem belas.

Invisível, disfarçado e escondido o corpo gordo deve ficar e quando aparece, sempre carregado de estigma, são pessoas tristes, frustradas, desengonçadas, engraçadas, repulsivas, preguiçosas e relaxadas.

Dessa maneira, as ativistas de forma geral, procuram sair desse padrão e buscar outro caminho de estar e se perceber no mundo, para muitas delas parece importante perceber-se como gorda, usar o titulo de gorda como estratégia de autodenominação positiva e nunca negativa. O termo Gorda deve ser percebido como um adjetivo bom e que deve aparecer e existir, se deve aceitar para ser visível e estar presente na sociedade. Quando arrancamos de nós esse sentimento de horror ligado ao adjetivo Gordo, estamos nos tornando resistentes e desobedientes dissidentes da norma imposta por uma sociedade que padroniza e controla corpos e desejos, que define o belo e o saudável.

É como se fosse uma nova maneira de se mostrar ao mundo, um aparato de construção social corporal, porque existem jeitos de observar que fabricam corpos, continuamente. Eu acrescento, existem maneiras de olhar que fabricam desejos e belezas. A aposta será construir novos corpos, novos desejos, novas belezas. A ideia é mostrar que existimos e somos como qualquer outra pessoa, choramos, sorrimos, trabalhamos, transamos, enfim não somos monstros repulsivos como a mídia apoiada pelo discurso médico nos apresenta.

Dessa maneira, empodera-se quando se entende que ser gorda é estar fora de uma normalidade corporal, e isso é o que nos torna divergentes a essa norma, desvendar nosso olhar preso às normas e perceber quais mecanismos sócio-culturais podem estar por trás na busca de um corpo “normal” e quanta disciplina e normatizações nossos corpos devem suportar para ser o que se deseja que os corpos aconteçam.

Precisamos narrar em primeira pessoa, tanto no singular quanto no plural, a história de nossas realidades corporais. O argumento de ficção não impossibilita as ideias de trajetória, de realidade, de experiência corporal. Esta realidade tem que ser contada, coletivizada. É necessário recuperar essa experiência, admitir que somos vulneráveis e entender que essa é a condição do ser, e que não se pode ser sem se expor, porque existimos interligados aos outros. É importante reivindicar estratégias que partem da vulnerabilidade, de colocar nela o poder de transformação. Desmontar o discurso que exige que sempre sejamos fortes e valentes, poderosas. Aceitar-nos, amarmos a nós mesmas, estar em sintonia com um mundo que pede que estejamos infalivelmente prontas e saudáveis para assumir as tarefas de produção e reprodução. Este mundo aí de fora que pede que sejamos funcionais. E não penso em metas, nem em aceitação, nem em gostar, nem em convencer ninguém, porque não acredito em redenções nem evoluções, nem na barbárie convertida em civilização. Acredito em buscas, em paixões e atritos agonistas da minha própria carne, que vinculada a outras, tem o enorme potencial de fazer de nossas existências um lugar mais habitável e feliz, abrindo espaço para indomáveis formas de habitar nossos corpos. (Massom, 2014).

O corpo, para Foucault (1987), está inserido numa teia de poderes que lhe ditam proibições, obrigações e coerções que acabam por determinar gestos e atitudes e, portanto delimitam as práticas e mecanismos na construção do corpo inteligível em uma estrutura sócio política de utilidade e docilidade.

Cada grupo social imprime expectativas em torno ao corpo. Por este motivo que entendemos que o corpo reveste de significados e interpretações, ao “corpo se aplicam sentimentos, discursos e práticas que estão na base das vidas sociais.” (Ferreira, 1994: 101).

Dessa maneira, a quebra da normatização de corpos magros como o único aceito e valorizado, a nosso ver nessa pesquisa, pode transformar uma mulher triste e infeliz em um indivíduo politicamente resistente a uma padronização que a mesma percebeu que não se encaixa, utilizando essa característica para resistir ao padrão e se auto-afirmar como alguém que existe e merece viver como qualquer outro corpo na sociedade.

Nossa proposta nesses estudos é despertar a discussão sobre a gordofobia e o corpo gordo feminino na sociedade contemporânea, dessa maneira entender as relações que existem entre corpos, gênero, política, ativismos, obediência e normatização social. Diante das muitas exigências de submissão às normas estéticas tem surgido uma resistência feminina em não aceitar e quebrar essas normatizações corporais.

O que temos enxergado  são mulheres que sofreram com seus corpos, que não fazem parte desse padrão estético feminino e conseguiram se libertar dessas exigências sociais. Por meio de conversas, leituras, movimentos feministas, mulheres começaram a entender que toda essa normatização do corpo magro é uma utopia e todas sofriam com a busca de algo que nunca poderia ser alcançado. Algumas delas não se declaram ativistas, mas de alguma maneira também buscam empoderar-se e estar no mundo de maneira distinta ao que já esteve.

A partir da dificuldade em aceitar o próprio corpo como ele é, começam a surgir reflexões sobre a possibilidade de ter autonomia e aceitar o corpo como resistência, dentro a essas ações, do micro ao macro, começam a surgir inúmeros movimentos de mulheres que acreditam que seus corpos são livres e que, ao invés de ficarem sofrendo, invisíveis e excluídas em seus sofás, lutam pela aceitação e, assim, transformam seus corpos em corpos políticos, revolucionários e felizes. Como já dito, Michel Foucault esclarece que o corpo foi descoberto como objeto e alvo do poder. Ele ganha atenção quando é percebido como algo manipulado, modelado, treinado e obediente.

O que se percebe é que o empoderamento pode partir do coletivo para o individual, o movimento pode ajudar a mulher individualmente através de uma auto-reflexão se empoderar para se tornar ativista e empoderar outras mulheres. Ou seja, sou ajudada no coletivo a me libertar dos padrões que me fazem sofrer e quando consigo me libertar, acontece uma transformação com a maneira que me percebo para poder ajudar outras mulheres a passarem pelo mesmo processo.

Assim, acontece um trânsito não linear nas passagens entre o mundo virtual para o mundo físico, se começa no empoderamento, desabafos e identificações, para depois o enfrentamento na vida cotidiana nas escolas, praias, shoppings, locais de trabalho, festas, etc.

Apesar de toda cobrança social sobre corpos perfeitos, existem mulheres do mundo todo lutando em sentido contrário aos interesses empresariais de impérios como light diet, cosméticos, academias, etc. Tais mulheres propõem outro modo de ser e estar no mundo, outras sociabilidades, outras corporalidades, buscando o empoderamento de seus modos de ser, que estão fora dos padrões, libertando-se da opressão estética na subjetividade capitalística.

Referências Bibliográficas

Arraes, Jarid. 2015. Gordofobia como questão política e feminista. Revista Fórum. Disponível em: http://www.revistaforum.com.br/digital/163/gordofobia-como-questao-politica-e-feminista/. Acesso em: 12/05/2015.

Baquero, Rute Vivian Angelo. 2012. Empoderamento: instrumento de emancipação social? – uma discussão conceitual. Revista Debates, Porto Alegre, v. 6, n. 1: 173-187. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/index.php/debates/article/view/26722/17099. Acesso em: 18/05/ 2016.

Batliwala, Srilatha. 1994. The meaning of women’s empowerment: new concepts from action. In: Sen G., A. Germain & L.C.Chen (eds.). Population policies reconsidered: health, empowerment and right. Boston: Harvard University Press, p. 127-138.

Ferreira, Jaqueline. 1994. O corpo sígnico. In: Minayo M. C. S.; Alves P. C. (Orgs.) Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Fiocruz, p.101-112. Disponível em: http://static.scielo.org/scielobooks/tdj4g/pdf/alves-9788575412763.pdf. Acesso em: 15/04/2015.

Fischler, Claude. 1995. Obeso benigno, obeso maligno. In: Sant’anna, Denise Bernuzzi (Org.) Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação Liberdade, p. 69-80.

Foucault, Michel. 1997. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.

______________1996. A ordem do discurso. São Paulo: Editora Loyola.

______________1987. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro, Forense.

______________1988. A microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal.

_____________ 1983.The subject and power. In: Dreyfus, H.; rabinow, P. Michel Foucault: beyond structuralism and hermeneutics. 2a ed. com posfácio inédito dos autores e entrevista de Michel Foucault. Chicago: The University of Chicago Press, p. 208-226. (tradução nossa).

Godino, Carmen. 2017. Cuando el feminismo habla de presión estética y no de gordofobia. Contra información y música en la Red, 2017. Disponível em: http://linea36.com/wp/cuando-feminismo-habla-presion-estetica-no-gordofobia/, Aceso em : 02/10/2017.

Guattari, Felix; Rolnik, Suely. 1996. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Petrópolis: Vozes.

Jimenez-Jimenez, Maria Luisa; Abonizio, Juliana. 2017. Gordofobia e Ativismo gordo: o corpo feminino que rompe padrões e transforma-se em acontecimento. Uruguay: XXXI Congreso ALAS Asociación Latino América de Sociología, Género, Feminismos y sus aportes a las Ciencias Sociales. Movimientos sociales, acciones colectivas y participación políticas.

Lazzarato, Maurizio. 2006. As revoluções do capitalismo: A política no império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira

Louro, Guacira Lopes. 2015. Pedagogias da Sexualidade. IN: Louro, G. L. (Org.). O Corpo Educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica Editora, p. 9-33.

Massom, Laura. 2014. El cuerpo como espacio de disidencia: Cuerpos inapropiados contra una sociedad que estandariza y controla, que define lo bello y lo sano. Activismo Gordo. Diagonal. Disponível em: https://www.diagonalperiodico.net/cuerpo/22353-cuerpo-como-espacio-disidencia.html. Acesso em: 17/10/2014. (tradução nossa)

___________ 2007. Feministas en todas partes. Una etnografía de espacios y narrativas feministas en Argentina. Buenos Aires. Prometeo libros. (tradução nossa).

Mosedale, Sarah. 2005. Policy arena. Assessing women’s empowerment: Towards a conceptual framework.Journal of International Development: 243-257

Sant’anna, Denise Bernuzzi.1995. Cuidados de Si e Embelezamento Feminino: fragmentos para uma história do corpo no Brasil. IN: Sant’anna, D. B. (Org.). Política do Corpo. São Paulo: Estação Liberdade, p. 121-139.

________________ 2001. Corpos de Passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade.

________________2014a. Entre o peso do corpo e o pesar da alma: notas para uma história das emoções tristes na época contemporânea. História. Questões e Debates, v. 59, p. 99-113.

________________2014b. Da gordinha à obesa. Paradoxos de uma história das mulheres. Labrys: Revista de Estudos Feministas, janeiro/junho. Disponível em: https://www.labrys.net.br/labrys25/corps/denise.htm. Acesso em: 26/09/2014.

Sardenberg, Cecilia Maria Bacellar. 2006. Conceituando “empoderamento” na perspectiva feminista.Disponívelem:<https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/6848/1/Conceituando%20Empoderamento%20na%20Perspectiva%20Feminista.pdf&gt;. Acesso em: 4/05/ 2015.

WOLF, Naomi. 1992. O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco.

Texto publicado no Todas Fridas:

http://www.todasfridas.com.br/2018/03/03/o-corpo-gordo-feminino-como-resistencia/

Escrito por Maria Luisa Jimenez Jimenez

PAPOS DE QUINTAL: Rodas de conversa sobre gordofobia. Chama a gente!

É com muita alegria, emoção e carinho que anunciamos nosso primeiro evento do Projeto lute como uma gorda, que ganhou nomeeee … Papos de quintal!

Em pensar que, quando chegamos nesse formato, seria apenas um teste para observar como seria recebido nossa proposta de pensar sobre Gordofobia em diversos segmentos em nosso Estado.

Nossa intuição feminina acertou mais uma vez.

Hoje, podemos afirmar que é um sucesso, tanto a ideia do projeto-ação LUTE COMO UMA GORDA! como as rodas no Metade Cheio, que nos recebe sempre com o coração aberto e a gente se sente em casa, e essa casa lota, falta cadeiras e o coração pulsa e a gente se fortalece, se une, se afecta.

O sucesso tem sido tanto, mas tanto, que nossas rodas viraram evento e tem até nome: PAPOS DE QUINTAL, além de que tem se esparramado para outros Estados, outros cenários, mas sempre recebidas com muito carinho por onde passamos, deixamos resistência e a provocação para que pensemos sobre como nossa sociedade vem tratando o corpo gordo.

Esse Evento já é sucesso graças a todes que nos apoiaram, compareceram, divulgaram e levaram essas discussões para outros espaços.

A gente se enche de orgulho e agradece.

Se você quer levar esse evento papos de quintal: rodas de conversa sobre Gordofobia, chama a gente que a gente vai e leva tudo que a gente puder junto….

Esses Eventos são importantes porque além de levantar essa reflexão necessária e urgente sobre gordofobia e estudos do corpo gordo, também faz o papel de unir mulheres gordas do lugar onde estamos realizando o evento, já que muitas vezes essas mulheres gordas não se encontram, nem se conhecem.

Foi nesse evento Papos de Quintal, por exemplo, que surgiu as GORDAS XÔMANAS em Cuiabá. Por isso, se você está se sentindo sozinha e gostaria de começar um movimento aí na sua faculdade, cidade, bairro, coletivo, chama a gente que a gente vai.

Por questão de investimento, a maioria das vezes sou só eu mesma rsrsrsrs. Chama que a gente ajuda você a organizar.

Certeza que vai ser potência, resistência e claro! Sucesso!

Sempre é!

CHAMA NÓS!

Evento: Papos de Quintas: rodas de conversa sobre gordofobia

Local: Onde você quiser, chama a gente que a gente ajuda a organizar!

Objetivo: levantar a discussão sobre gordofobia e estudos do corpo gordo, mas principalmente fortalecer gordas locais

Fotografias: @juqueirozfotografia

PAPOS DE QUINTAL 3ª Roda de Conversa de 2019. Gordofobia na Escola

Nossa ultima Roda de Conversa de 2019 no Metade Cheio em Cuiabá foi sobre a Gordofobia nas Instituições de Ensino, tema pouco discutido na comunidade escolar, de necessidade urgente e a gente quis levar para a conversa alunos, professores, universitários, psicólogos, pedagogos, profissionais da educação para refletirmos sobre esse estigma nesse espaço que deveria ser seguro e a gente sabe que não é.

Como sempre, nossas rodas ficam cheias de alegria em poder trocar conhecimento sobre o tema.

Contamos com a presença de mediadores envolvidos na discussão, que foram a Terezinha do Nascimento Souza professora do Estado e Mestra em Estudos de Cultura Contemporânea, pesquisadora sobre racismo no Brasil, e Maurilio Mederix, jornalista e psicólogo especialista em Educação e Saúde.

Foi muita potência contar com suas falas e observações sobre a gordofobia nas escolas, a participação dos convidados sempre acrescenta um monte, e ficamos mais fortes e unidas quando estamos ali debatendo sobre o assunto.

Nossa 3ª roda levantantou a reflexão sobre a GORDOFOBIA NA ESCOLA, espaço que deveria ser seguro, mas que na prática tem sido extremamente excludente quando observamos o corpo gordo nesse espaço.

Como devemos agir? Como explicar sobre esse estigma para os alunos? Porque só vemos palestras sobre alimentação saudável, prática de exercícios e quase nunca sobre a gordofobia?

Questões importantes para se levantar um debate mais profundo e exigir das autoridades, coordenadores, diretores, Secretaria da Educação uma atençaõ voltada a esse tema.

Lembramos ainda do suicidio da menina Dielly Santos, de 17 anos, que se identificaria com essa realidade se, ela não tivesse se suicidado na escola em que estudava, em Icoaraci, no Pará. A estudante foi encontrada morta no banheiro. “Enforcamento”, apontam os laudos policiais. De acordo com a família da jovem, Dielly era vítima de bullying e gordofobia, e constantemente chamada de “lixo” e “porca imunda” pelos colegas, que gargalhavam após proferir tais ofensas.

Muitos depoimentos sobre esse tipo de tragédias são conhecidos quando pesquisamos a gordofobia nesse espaço.

Desde criança, na socialização primária, aprendemos em casa com nossa família e depois nas escolas que o corpo saudável e bonito é o corpo magro.⠀

O corpo gordo nas Instituições de Ensino seguem a Gordofobia estrutural e, portanto repete a exclusão e estigmatiza a criança gorda, causando fobias, medos, traumas, bulliyng e suicídios.⠀

Os profissionais da educação repetem a estigmatização, e não sabem lidar com o preconceito, culpando na maioria das vezes a própria vítima.⠀

Por isso é importante levantar essa discussão dentro dos espaços de ensino, já que está naturalizado esse tratamento estigmatizador a crianças e adolescentes gordos.

As Gordas Xômanas estavam lá colaborando com a discussão, e ocupando nosso espaço de fala.

E como de costume, encerramos nosso evento com música, dessa vez com CRAVOCANEL, e foi bem legal.

Se você quiser saber mais sobre essa discussão, sugerimos o último texto da Malu Jimenez que saiu nas redes TODAS FRIDAS que levanta essa discussão.

Dá uma olhadinha: http://www.todasfridas.com.br/2019/09/20/gordofobia-na-escola-lute-como-uma-gordinha/

Imagens: @juqueirozfotografia

Como pode? Mulher gorda pode!

Há anos, já perdi a conta de quantos, venho experimentando uma exclusão sob a mirada vigilante e julgadora de pessoas dentro do meu convívio social. Um olhar diferenciado que me diz coisas, de repulsa, engano, reprovação, aversão, nojo, medo e muitos outros diversos sentimentos expressados, apenas com o afrontar através dos olhos e algumas vezes com a negação da cabeça, mas principalmente com a mirada de censura.

Anos esses difíceis de entender o que esse olhar significava e porque se repetia em diversas ocasiões e com pessoas distintas, sabia que era familiar e que não era um olhar de aprovação e carinho, muito pelo contrário, tinha algo de errado em mim, comigo e por esse motivo ele aparecia. Olhar esse, que me remetia à reprovação na infância quando fazia coisas que minha mãe não permitia como comer com as mãos, ou subir na escada sozinha, brigar com minha irmã. Estava ali, entalhado no meu ser, me remetia a mudança de comportamento e me rasgava por dentro.

Toda essa sensação de inadequação reverberou na minha vida de diversas maneiras, infelizmente nenhuma positiva, até que há alguns meses comecei a perceber que esse comportamento externo repetitivo durante o decorrer da minha vida, tinha uma ligação inerente ao meu corpo gordo.

Mas, muito mais que com meu corpo gordo, era como meu comportamento não estivesse adequado a esse corpo maior, dessa reflexão, numa conversa com uma amiga, dessas que são fada, madrinha e palhaça tudo ao mesmo tempo agora, minha “falhaça”, acabou saindo de dentro de nós a expressão: Como pode?

Sim, como pode essa gorda não querer fazer regime? Como pode essa gorda ser casada? Como pode essa gorda fazer doutorado? Como pode essa gorda estar feliz? Como pode essa gorda fazer teatro? Como pode essa gorda se autodeclarar gorda e isso não mostrar nenhum sofrimento? Como pode essa gorda falar de alimentação saudável? Como pode essa gorda querer usar biquíni?  Como pode essa gorda não ser zoada por seus alunos? Como pode essa gorda falar com o motorista do ônibus que ela não cabe na catraca e rir disso? Como pode?

]Essa expressão me empoderou de tal maneira que hoje, quando alguém me olha com aquele olhar de reprovação, e que há um tempo atrás acabava comigo e sentia culpa, por algo que nem sabia muito bem o que era, ficava mal e me sentia muito inadequada, o patinho feio e gordo da parada, hoje automaticamente me vem à mente:

Como pode? Sim, eu leio os pensamentos alheios e dou muita risada deles, porque eu consegui reverter um sentimento horrível em algo criativo e engraçado. Dessa maneira, tenho me sentido muito mais engraçada e minha construção de aceitação achou uma maneira de reverter uma situação de toda uma vida em algo prazeroso. Muitas das vezes já fico na espera: lá vem, O como pode?

Poder transformar aquilo que te faz mal em algo criativo vem ao encontro de um trabalho do feminismo de aceitação e entendimento do próprio corpo de muitas maneiras e buscas. Entender que as pessoas que te reprovam e não te aceitam, são as pessoas que precisam de ajuda, pois se incomodam com algo que não sabem muito bem porque, ser gorda e não se suicidar nesse mundo é o maior ato de resistência que eu venho experimentando.

Como pode?

Mulher gorda pode.

Texto escrito por: Maria Luisa Jimenez Jimenez.

Publicado: NÃO ME KAHLO, 2018.

Fotografia: @juqueirozfotografia

MEU CORPO GORDO É POLÍTICO: RESISTE AOS PADRÕES DA BELEZA E SAÚDE.

Muitas mulheres mandam depoimentos por minhas redes “Estudos do Corpo Gordo Feminino”, perguntando como eu consegui ver meu corpo gordo grande, de outra maneira, que não fosse através do que as mídias capitalísticas vendem por beleza e saúde. Talvez não nessas palavras, mas se resumem a isso: Como eu consegui ou consigo ultrapassar a concepção do que é ter um corpo belo e saudável na sociedade atual?

Foram tantas perguntas bem parecidas que resolvi escrever esse texto levantando essa discussão, escrever em primeira pessoa também é se colocar dentro da discussão e isso é libertador. Conhecimento também é empoderamento, e foi através dele que entendi que meu corpo é Resistência, subversivo e criativo.

Meu corpo sempre foi gordo, menor, maior e muito maior hoje em dia, foi esse corpo enorme que me trouxe até aqui, quem eu sou, questionamentos sobre o que é ser bela ou saudável, minha pesquisa de doutorado, a esse texto. Ser gorda e entender que isso não é ruim, me coloca como uma mulher politizada, que entende que seu corpo é político, porque subverte o entendimento comum do que é um corpo “normal”.

O normal aqui, se refere ao magro, e o magro hoje, se refere ao belo e saudável. Quando entendo meu corpo fora dessa normatização do que é ser normal: magro, belo e saudável, quebro padrões, subverto minha maneira de ser e estar no mundo.

Virgie Tovar, ativista gorda feminista americana, psicóloga, especialista sobre discriminação por imagem corporal, professora da Universidade Novo México e escritora. É fundadora de Babecamp um curso virtual para ajudar as mulheres romperem com os paradigmas dos padrões de beleza e abandonar a famosa cultura da dieta, escreveu um livro traduzido para o português, “Meu corpo: Minhas medidas”, que levanta essa questão, sobre mulheres gordas que subvertem esse modo de pensar e não aceitam mais uma posição social inferior aos demais, por ser gorda.

A autora afirma que, “Mulheres gordas que estão dispostas a aceitar sua posição social cultural como inferior são tratadas de maneira diferente do que as mulheres gordas que são politizadas.” Dessa maneira, entender que seu corpo gordo é político porque é resistência a padronização do que é ser belo e saudável na sociedade capitalística é um ato revolucionário e pode libertar você de concepções equivocadas sobre seu corpo gordo.

Entender que a cultura da dieta e de uma sociedade obcecada por emagrecer as pessoas causa tristeza, desconforto e alienação liberta sua existência de modo político e subversivo numa vida mais feliz com o que você é. Entender que não necessariamente preciso ser como dizem que tenho que ser, é se posicionar no mundo com mais leveza, confiança e por inteira, logo com mais autoestima.

Dois filósofos escreveram um livro muito interessante para essa discussão, Félix Guattari e Suely Rolnick, “Micropolítica: Cartografias do desejo”, no qual explicam sobre a “subjetividade capitalística”, que nos constrói coprodutores de padrões vigentes, num processo onde o que importa sempre será os interesses dos impérios bilionários das grandes corporações, deixando de lado, tornando sem importância o que somos, tirando por completo o individualização do viver e ser.

Eles explicam que “O indivíduo, a meu ver, esta na encruzilhada de múltiplos componentes de subjetividade.” Entre esses componentes alguns são inconscientes. Outros são mais do domínio do corpo, território no qual nos sentimos bem. Outros são mais no domínio daquilo que os sociólogos americanos chamam de “grupos primários.” (O clã, o bando, a turma, etc.). “Outros, ainda, são do domínio da produção de poder; situam-se em relação a lei, a polícia, etc. Minha hipótese é que existe também uma subjetividade ainda mais ampla: é o que chamo de “subjetividade capitalística.”

Assim, existe uma construção minuciosa por meio de diversas instituições sociais de uma “subjetividade capitalística”, e essa cultura produz pessoas normatizadas, mesmo que inconscientes vamos copiando modos de vida, padronizando comportamentos, pensamentos, falas, corpos, discursos.

Porém, quando se entende essa maneira de produção das padronizações na forma que agimos, pensamos e somos, do que é ser “normal”, belo e saudável, podemos contrapartida e politicamente construir subjetividades dissidentes e romper com essa cadeia de normalização do que o sistema construiu sobre o corpo.

Assim, quando saímos dessa padronização e domínio capitalístico de ver o mundo, o corpo, nós mesmos, rompemos a normatização do sistema e ocupamos nosso próprio corpo através da criação e reflexão sobre o como ele é, como poderá ser, e recriar um corpo que não está de acordo ao que o padrão impõe.

Em um artigo que escrevi para um Congresso Latino-americano de Sociologia no Uruguai sobre o corpo gordo como resistência, “Gordofobia e Ativismo gordo: o corpo feminino que rompe padrões e transforma-se em acontecimento”, proponho que, aceitar o corpo como ele é ou produzi-lo de modo criativo, pode provocar mudanças nas concepções de beleza, saúde e felicidade, já que podemos considerar esse processo uma expressão de resistência a corporeidade capitalística, porque transfere o indivíduo para outra lógica de estar e ser no mundo.

O entendimento sobre respeitar o próprio corpo como ele é, fora dos padrões, e ama-lo por isso transforma nossa maneira de pensar e estar no mundo. Através dessas reflexões, entendimentos e construção de conhecimento construímos uma revolução dentro de nós mesmas na criação de outra maneira de estar, viver e ser nesse mundo.

Reverberando uma contaminação no modo de ser para outras mulheres gordas, que começam a recriar também uma maneira diferente de ser e viver, nesse mundo de padronizações que só sustentam o lucro de corporações bilionárias do sistema.

Assim, por meio do respeito ao nosso próprio corpo, começam a acontecer inúmeras libertações, entendimentos e criatividades que acabam mudando ou pelo menos abalando essa subjetividade construída capitalísticamente em nossas vivências com o próprio corpo, no qual experienciamos padronizações severas corporais desde nossas infâncias.

Como Michel Foucault que propõe estabelecer uma existência cotidiana estética, em que explica que “O problema político, ético, social e filosófico de nossos dias não é o de tentar libertar o indivíduo do Estado e das instituições estatais, mas de nos libertar tanto do Estado quanto do tipo de individualização que está vinculado a ele. Precisamos promover novas formas de subjetividade através da recusa desse tipo de individualidade que tem sido imposta a nós há vários séculos.”

Essa libertação da padronização do que é normatizado por um corpo belo e saudável é político, revolucionário e libertador, em contrapartida a proposta é viver uma vida criativa, e não repetitiva do que nos dizem para ser, pensar e ouvir.

A proposta, a meu ver do ativismo gordo é compreender meu corpo como resistência política, subvertendo a padronização estética de beleza e de saúde, que hoje caminham juntas, como capacidade política de empoderamento, na construção de outra maneira de estar no mundo, como ação fundamental para a construção criativa de outras possibilidades e novas maneiras de ser e estar no mundo possíveis.

Com o questionamento sobre nosso corpo gordo ser estigmatizado, humilhado e excluído nessa sociedade, construímos uma vontade de oposição ao que já se vive, uma contraposição a essa sociedade de controle, disciplinadora dos corpos e mentes, capturando e revelando fluxos de crenças e de desejos contra a naturalização do sistema e reafirmando a revolução que o indivíduo pode se propor na abertura de uma possibilidade a novos mundos possíveis.

Os corpos que resistem a serem padronizados como magros, belos e saudáveis, etiquetados e colocados à mostra como o ideal a ser seguido. De alguma maneira é revolucionário, pois resiste ao que se obriga ser, e ao contrário de sentir-se mal por não estar dentro do padrão, aceita esse corpo como quebra de todo uma ideia pré-concebida do que é ser belo, saudável, feminino no mundo capitalista.

Dessa maneira, o corpo gordo assumido, pode ser considerado um corpo político, ou corpos políticos, já que é o corpo indesejado, provocativo, inadequado, que subverte a lógica estabelecida e invoca a resistência nos espaços em que ocupa. Nesse sentido, meu corpo gordo é político, porque resiste aos padrões da beleza e saúde estabelecidos.

PARA CONSULTAR

– Virgie Tovar, Meu corpo, minhas medidas, 2018.

– Félix Guatarri; Suely Rolnik, Micropolítica: Cartografias do Desejo, 1996.

– Maria Luisa Jimenez Jimenez; Juliana Abonizio, Gordofobia e Ativismo gordo: o corpo,

XXXI Congreso Asociación Latinoamericana de Sociología. Disponível em: http://alas2017.easyplanners.info/opc/tl/1243_maria_luisa_jimenez_jimenez.pdf

texto escrito por Maria Luisa Jimenez Jimenez

publicado no TODAS FRIDAShttp://www.todasfridas.com.br/2019/07/17/meu-corpo-gordo-e-politico-resiste-aos-padroes-da-beleza-e-saude/

imagens: internet