O desafio de se envolver com uma mulher gorda e preta

Importante começar esse texto dizendo que ele não é fácil de ser lido e, se assim como eu, você é uma mulher gorda e preta, vai ser difícil de ler.


Nesses cinco anos que eu enfim venho encarando a questão racial de frente, muitas questões vem permeando a minha existência, mas a que mais me deixa inquieta com frequência no âmbito afetivo é: qual tipo de amor eu mereço? Digo isso pois na hora de pautar amor a dois, mesmo entre pessoas pretas, o corpo é sempre uma questão.

Não me lembro de me ver como um corpo desejável, cobiçado, sexy com frequência antes de movimentos body positive surgirem, muito pelo contrário. Eram sempre questões envolvendo emagrecimento e ódio as minhas curvas voluptuosas, as minhas estrias, as minhas marcas, ao meu formato totalmente fora do padrão.

Só que agora que eu me vejo como um corpo desejado, cobiçada, alvo da luxúria, vejo também os desafios de alguém me amar além de tudo isso. Pois eu tenho vivências dolorosas que me cercam de receios que me tornam talvez, uma pessoa difícil de amar.

Difícil amar alguém que tem um problema enorme em se sentir suficiente para si própria, quem dirá aos outros. Uma pessoa que sempre esteve em uma posição inferior as demais e por isso, dificilmente vai se encarar como um real destaque na vida de alguém, como uma fonte inesgotável de amor para alguém.

De onde vem essa dificuldade? Oras, das coisas que queríamos e por muitas vezes não conseguimos ter em todos os aspectos da vida como carreira, dinheiro, família, etc. Vem de ter uma vivência pautada no apagamento, na exclusão, na ilusão.

E isso nos torna mulheres difíceis de amar, porquê tudo sempre vai parecer errado, deslocado, roubado… Sempre tem a sensação de ‘não lugar’ e para alguém estar com a gente, precisa ser paciente para lidar não só com a potência que temos, mas com as dores também. Isso nos torna mulheres difíceis de amar.

A dificuldade vem da necessidade de que esse amor seja afirmado todos os dias, em diversas formas. Que seja sincero e incansável, que entenda a dor e queira ser realmente o bálsamo.

Então, posso concluir dizendo que senão for pra tocar com carinho o mundo de uma mulher preta, não tente tocar. E quando ela te avisar que vai ser difícil, saiba que será quase tão ruim quanto ir para uma guerra e você terá que escolher se quer estar no campo de batalha todos os dias por ela e, principalmente, com ela.


Texto de Fernanda Souza

Paulista, paulistana, negra, gorda, taurina, nerd, mãe, nostálgica, intensa e ansiosa. Futura Dev.

Nas redes sociais, meu @ é sempre leitoraincomum.

Publicado por Fernanda Souza

Desde 1985 ocupando um espaço no mundo. Graduanda de Análise e Desenvolvimento de Sistemas na FATEC Ferraz de Vasconcelos, mãe desde 2006 de um menino incrível e atualmente viciada em bootcamps e Valorant. Acredito que compartilhar conhecimento e experiências multiplica o saber próprio e que viver é o meu maior ato político.

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